- uma análise do espetáculo Ação #02 / Sim > ações integradas de consentimento para ocupação e resistência/ Platéia teste de uma espectadora leiga.
Karine de Oliveira Cupertino
A primeira vez que assisti Cena 11 foi no CIC, Pequenas frestas de ficção sobre realidade insistente.
Abre parênteses: eu não consigo entrar no além quando vejo um espetáculo de dança. Fico mais racional do que costumo ser e observo se o movimento parte de tal músculo ou a razão daquele movimento em tal cena. A dança nunca me levou além do racional, nunca me trouxe aquilo de entrar dentro da gente mesmo, buscando os fantasmas, brigando com nosso ego, tirando a gente do nosso centro. Coisa que com peças de teatro rola mais.
Fecha parênteses: eu não gostei da primeira peça que vi. Senti sono, vontade de ir embora, tristeza de não ter gastado aqueles vinte reais em cerveja, pensamento em qualquer outra apresentação que poderia ter ido.
Isso foi em 21 de setembro de 2008. Naquela época, devo confessar, a dança me era muito mais chata do que é hoje. Isso porque não luto mais para não ser racional. Vou sabendo que vou ser aquela chata de galochas que não se envolve com o que está no palco.
Resolvi ver Cena 11 de novo. É que tinha ouvido que a proposta era que o público fosse de lá pra cá, fizesse escolhas e participasse do espetáculo. Pensei que isso era teatro também.
Saí do espetáculo aliviada: eles não ficaram brincando de cair a todo momento. E sentir sono em pé seria desagradável. As poucas quedas eram preparadas com uns tremores internos que me fizeram trazer aquelas perguntas “qual músculo? De onde vem isso?”.
Confesso que teve uma hora que desanimei. Sentei no chão mesmo, já me preparando para sentir sono. Enquanto isso, tinha uma pulando pelo espaço com um peso duas vezes mais do que ela tinha. Acho que ela me reconheceu do espetáculo do CIC. Ou reconheceu que ela tinha que fazer alguma coisa para eu me manter interessada. Porque ela veio caminhando de longe naquelas passadas largas de gazela e deu um pulo bem na minha frente que, mesmo eu sabendo que não me machucaria, meu corpo acordou.
Mas eu estou pulando o começo, que é uma das partes mais legais. Aquele cordão de gente com o fio de microfone na mão pra cima e pra baixo, acompanhando as batidas de pé no chão, “Tum, Tum” fazia o microfone junto com o pé, num “Tum, Tum” que seria mais correto todo em caps lock. Foi super divertido perceber que aquela imagem estava me trazendo outras: uma cavalaria, os orcs no senhor dos anéis quando a galerinha do bem estava trancada em sei lá onde. Eu ainda controlava as imagens. Exercia um poder de seleção entre as que eu queria que ficasse. Mas foi uma experiência nova pra mim: conseguia ir além do que eu via num espetáculo de dança.
De dança? Vai ver que não era de dança.
O microfone foi o maior capricho inteligente do espetáculo. Ele servia de extensão do movimento, fazendo sua própria reverberação da ação. Ele completava o corpo no que ele não podia dar. Eu sabia que ia ser legal toda vez que via o fiozinho preto deslizando no chão.
O capricho da voz eu não gostei. Falaram, não digo quem, que Cena 11 está descobrindo agora que tem voz, e isso leva um tempo para ser orgânico no trabalho que eles propõem. Mas quem falou isso achou que eles fizeram um ponto positivo na parte dos gritos. Nem isso eu concordo. A voz não era extensão do corpo.
E sobre aquela tinta vermelha… Sabe Você não me ensinou a te esquecer? Aquela do grande Caetano. Eu amo Caetano. Mais que Chico. Por um pouquinho a mais. Mas tenho plena certeza de que se essa música fosse lançada pelo Wando, seria bem mais brega do que já é. Eu comparo a parte da tinta com esse fato da música.
A tinta foi Você não me ensinou a te esquecer. Mas a purpurina logo em seguida fez tudo virar Caetano. Daí achei, temporariamente, o brega, genial.
Será que estou contando demais?
Vou fazer uma última observação, sobre o “platéia teste”. Outra pessoa ficou me falando como eles são ultrapassados em comparação com La Fura Dels Baus, “porque esses sim desafiavam a platéia. Eles faziam coisas que se você não saísse do caminho você levava!”. Eu acho que uma parte que aconteceu isso, num giro a dois, com uma estátua que estava num lugar desde o começo do espetáculo (ele estava testando o conceito de resistência na sua máxima estática). Levou uns tapinhas na cabeça.
Agora, ultrapassado? Acho tão difícil colocar as coisas em escala evolutiva. Mas eu faço isso: Zé Celso, pra mim, é passado. Nelson Rodrigues também não choca mais. Será que ser a frente do nosso tempo é ser agressivo? É ser sexual? Eu acho que é quebrar expectativas. Eu cheguei lá com medo, naquele caixa preta com um monte de gente pós-moderna-performática-anti-dramática. Pensei que eles iam me expulsar de onde eu estava, me torturar, me eletrocutar com o fio do microfone encapado. Mas não. Não era uma grande luta. Eram ações simples que testavam se eu saía ou não do lugar no momento do choque. Não era pra acontecer guerra, mas aquele primeiro momento, sabe? Aquilo que se dá antes de você terminar de falar clí….max. E, às vezes, eles alongavam esses três pontinhos que separam as sílabas.
Cena 11 me surpreendeu. Aconteceria no Pequenas frestas se eles dessem duas quedas no começo e quando fossem fazer a terceira, voassem. Mais uma e daí o cavalo caísse. Mais nenhuma queda e vão inventar coisas novas. Para uma espectadora, vocês conseguiram.